Cinco tendências de legalização que irão facilitar a rotina dos setores jurídico e contábil

Cinco tendências de legalização que irão facilitar a rotina dos setores jurídico e contábil

* Por Miklos Grof

O Brasil está na 12ª posição entre as 20 maiores economias globais pelo Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, há um panorama oposto no ranking Doing Business 2020, que revela o país na modesta 124ª posição em relação à facilidade de abertura de novos negócios. E o fator que mais dificulta a regularização de um negócio no Brasil é a ausência de informações transparentes em um único sistema.

Com base no último relatório do Redesim, sistema criado para gestão de abertura, alteração e baixa de empresas de todo o país, Goiás é o estado com o processo de legalização de empresas mais digitalizado, levando 1 dia e 2 horas. 

Para se ter uma ideia, na Estônia, a abertura de uma empresa pode ser realizada 100% online, custa cerca de 190 euros e leva 2 horas para ser concluída.

Diante desse cenário, vejo cinco tendências para o setor de legalização que podem ajudar contadores e advogados e facilitar a jornada dos empresários brasileiros.

1. Alto investimento em tecnologia por escritórios de contabilidade e advocacia 

Os setores contábil e jurídico eram tradicionalmente mais resistentes sobre a aplicação de softwares e automações em sua rotina operacional. Até a pandemia chegar e pressionar contadores e advogados de todo o mundo a investir em tecnologia para sobreviver com seus negócios. Agora, muitas startups estão causando uma disrupção no mercado e crescendo muito rápido, forçando essas empresas mais tradicionais a se atualizarem.

O Brasil ainda lida com outro fator: parte da rotina de cartórios, prefeituras, juntas comerciais e tribunais ainda é analógica e se mescla com sistemas pouco integrados. Mas, nos próximos cinco anos, veremos os mercados contábil e jurídico adotando cada vez mais softwares e plataformas para lidar com a alta competitividade e expectativas dos seus clientes.

Segundo uma pesquisa da Gartner com diversos líderes de legalização, o orçamento destas empresas destinado a softwares e tecnologia aumentou 1,5 vezes comparando 2017 e 2020. E a projeção até 2025 é que este tipo de investimento aumente 3 vezes. A mesma pesquisa apontou que, até 2024, o mercado legal e paralegal terá automatizado 50% do trabalho dedicado à legalização de empresas. 

A integração entre plataformas privadas e dados de órgãos públicos possibilitará a contabilidades e escritórios de advocacia a automação de consultas cada vez mais ágeis de processos jurídicos, documentação de clientes e informações tributárias.

2. Automatização do trabalho básico e administrativo nos escritórios contábeis e jurídicos

Uma pesquisa divulgada pela ABL2 em parceria com a Lawgile e a Future Law identificou o desafio da alta improdutividade e tempo que os advogados dedicam diariamente em certas rotinas. Mais de 35% dos entrevistados afirmou trabalhar entre 10 e 12 horas por dia. Deste período, em média quatro horas são dedicadas ao trabalho jurídico; enquanto a maior parte do tempo é dedicada a tarefas repetitivas como responder e-mails e conversas no telefone, reuniões e consultas de documentos e informações.

Quando o assunto é regularizar um negócio no Brasil, há quem diga que a burocracia em nosso país é uma grande bagunça, mas temos processos bem definidos. Porém, as etapas são desconexas, cheias de particularidades e com pouca transparência. Por enquanto, ainda lidamos com dados isolados e sistemas com tecnologia desatualizada que não se integram, gerando muitas etapas e validações de diferentes órgãos públicos em instâncias municipais, estaduais e federais para formalizar um CNPJ.

Atualmente, a tecnologia aplicada à área de legalização está avançando mais rapidamente no setor privado. Para escalar o atendimento a mais empreendedores e eliminar a improdutividade, plataformas com auxílio de bots e integrações apoiam contadores e advogados para reduzir drasticamente o desperdício de tempo com processos manuais e repetitivos de seus funcionários.

3. Foco na experiência e comunicação digital com o cliente

Nos últimos 10 anos, bancos digitais, empresas de saúde e bem-estar e comércio eletrônico nos acostumaram a comprar e consumir com a facilidade e agilidade que a tecnologia traz à nossa rotina. E a pandemia abriu ainda mais espaço para a tecnologia moldar definitivamente o nosso modo de trabalhar e fazer negócios.

Advogados e contadores são cada vez mais cobrados por seus clientes não só pela agilidade na prestação dos serviços, mas pela comunicação remota e ágil. Da mesma forma que reserva hospedagem, paga boleto e pede comida 100% online, o empresário da era digital quer gerenciar, remotamente e em tempo real, o status de um protocolo, documento, certidão ou processo legal da sua empresa.

Em resposta a essa demanda, os contadores e advogados que desejam aumentar receita e produtividade precisam garantir agilidade, transparência e eficiência na comunicação e na experiência que oferecem a estes clientes.

4. Dados integrados em nuvem e protegidos com blockchain

Durante a pandemia, escritórios de contabilidade e advocacia tiveram que lidar com a transição para o remoto, maior competitividade e alta cobrança de seus clientes por assertividade na prestação dos serviços com o melhor custo-benefício. 

A exemplo de outros nichos da economia, o setor de legalização segue a tendência de data driven. Até 2024, segundo a Gartner, estima-se que 20% dos profissionais do setor que atuam em escritórios especializados serão substituídos por outros especialistas em inovação, tecnologia e inteligência de dados. 

Toda essa avalanche de dados de empresas e clientes, naturalmente, aponta o alerta para a cibersegurança. Atrelada ao setor financeiro pelo crescimento das criptomoedas, a tecnologia Blockchain será cada vez mais aplicada, começando por contratos e documentos ‘inteligentes’ de pessoas físicas e jurídicas. Veremos maior agilidade, transparência e confiabilidade dos processos legais e paralegais, com documentos criptografados que não poderão ser excluídos nem sofrer intervenção por humanos.

5. Identidade e assinatura digital

Identidade digital é um recurso que centraliza documentos, biometria e dados individuais em um único cadastro. A Estônia é o país com maior aderência a este modelo de identidade digital com um sistema implementado em 1991. Cerca de 98% da população possui a identidade digital e sua aplicação no cotidiano é bastante ampla: certidão de nascimento, habilitação de motorista, voto eleitoral, histórico médico, declaração tributária, transações financeiras e a abertura de uma empresa são informações unificadas em um cadastro.

Startups têm investido em tecnologias de identidade e assinatura eletrônica de documentos, e o caso Estônia prova o potencial desta tendência com maior eficiência da gestão integrada de informações público-privadas. Desta forma, recursos governamentais que seriam despendidos com burocracia analógica podem ser usados em educação e serviços para a aplicação.

Miklos Grof é CEO da Company Hero, startup que já ajudou a simplificar a formalização de mais de 15 mil empresas no Brasil em quatro anos.